Uma grande paixão, uma grande frustração
27/agosto/2003 Postado em Sem categoria
Pra quem não sabe, eu já estudei piano. Esse ingrato instrumento consumiu 5 anos de estudos. Ontem eu me lembrei daquele tempo, toquei algumas músicas para um amigo que veio aqui em casa e nunca tinha me visto tocar. O Leandro, quando me viu ontem, ficou revoltado com o fato de que, há quase dois anos, resolvi parar de estudar. Começou com a minha ausência no recital de fim de ano da minha professora em 2001, era a primeira vez que eu não tocava desde que comecei a ter aulas com ela. E depois disso, resolvi “tirar férias por tempo indeterminado”.
Meu repertório não era muito abrangente, só tocava música clássica e… Stairway to Heaven (claro, tinha que ter alguma coisa do Led Zeppelin). Cheguei a tocar algumas músicas difíceis, como o Vôo do Besouro de Rimky-Korsakov (sempre foi meu sonho repetir aquela cena do filme “Shine”: chegar num restaurante todo lesadão, com cara de lobotomizado, pedir pra tocar e deixar todos boquiabertos), Sonata ao Luar de Beethoven (incompleta, tocava o adagio e comecei a pegar o presto agitato), Danza Ritual del Fuego, de Manoel de Falla, entre outras.
Larguei o piano por várias razões, a maioria relacionada com meu ego, uma coisa bem “Franciscana”. Uma das razões era ridícula, uma coisa infantil mesmo: eu percebia que estava perdendo meu posto de melhor aluno da Maria Célia. Eu sempre soube segurar a onda, era uma coisa que me incomodava mas não chegava a me desmotivar, aliás, muito pelo contrário. Mas quando meu “concorrente” começou a tocar o Prelúdio da Gota d”Água de Chopin, uma das músicas que eu mais gosto, ao mesmo tempo que minha professora sempre mudava de assunto quando eu mostrava querer enfrentá-lo (o Prelúdio, não o “concorrente”…), eu fiquei incomodado. Coisa de menino pequeno. Mas isso era peanuts, o maior motivo do meu abandono foi outro.
Arthur Rubinstein dizia:
“Quando um pianista deixa de estudar por um dia, ele nota a diferença. Se não estuda durante dois dias, sua família chega a perceber. Mas, se ele não chega perto do piano por três dias, aí são seus vizinhos é que notam a diferença”.
Digamos que era pra vizinhança perceber sempre… Nunca fui disciplinado o suficiente para estudar todos os dias. Quando estudava, era uma meia hora no piano e só. Por isso, as coisas nunca saíam do jeito que eu queria. Ou era um errinho aqui, ou um stacatto fora de lugar, ou um forte num hora que era pra ser piano, e eu estava sempre frustrado. E o pior não era isso, o pior era que eu vivia rodeado de puxa-sacos que só sabiam falar que eu era um fenômeno, que eu tocava muitíssimo bem, devia estudar fora, ir pra Julliard, esses exageros. E isso só me deixava mais insatisfeito, pois sentia que as pessoas não estavam prestando atenção de verdade ou não entendiam nada de música, fora que eu sempre odiei puxa-saquismo. Eu ligava mesmo só pra opinião do Torres, meu vizinho e grande amigo da família, que apontava meus erros. Eu adorava aquilo, ele era dos poucos que realmente me incentivavam a continuar tocando, pois via que ele estava preocupado em me ver tocando melhor, enquanto todo mundo ficava satisfeito com a minha mediocridade. Outra coisa que me irrita: acomodação. Sou um cara ambicioso.
Penso em voltar a estudar. Tenho muitos incentivos para isso, e deixando de lado a babação de ovo, eu vejo que apesar da minha falta de disciplina e erros constantes, eu sempre soube tocar expressivamente e as pessoas percebem. Tocar com expressão não é ficar fazendo careta como se estivesse numa crise maníaco-depressiva e usando o piano como um Prozac, é saber mostrar que não é um robô que está tocando, mas um ser humano.
Mas não é tão simples. Por mais que o mundo esteja cheio de gente que diz que é ótimo para a vida, pois você sempre irá tentar fazer o melhor, a minha opinião é: SER PERFECCIONISTA É UM SACO!
Uma resposta para “Uma grande paixão, uma grande frustração”
Por dutch em jun 3, 2008
Se eu fosse tentar expressar o que eu sentia quando tocava piano, talvez não conseguisse ser tão conciso. By the way, eu tocava o prelúdio da gota d’água, mas nunca consegui encarar o presto da sonata ao luar.
Abraço